A dificuldade de encontrar mão de obra para os canteiros costuma ser explicada com uma frase conhecida no setor: “o filho do mestre não quer mais trabalhar em obras”. A constatação é real. Mestres, encarregados e oficiais estão envelhecendo e a renovação não acontece no mesmo ritmo.
A explicação mais comum, de que os jovens simplesmente preferem outras carreiras, deixa de lado uma autocrítica relevante: o que os canteiros oferecem a esses jovens?
Parte das obras ainda é executada de forma bastante artesanal. Materiais são carregados de maneira braçal e o resultado depende do esforço físico do trabalhador. Para uma geração que estudou mais do que a anterior e encontra alternativas em outros setores, o ambiente pesa contra a escolha.
A construção dispõe hoje de sistemas pré-fabricados, construção modular e ferramentas digitais de projeto, mas ainda incorpora tais elementos de forma limitada. Aproximar o canteiro de um ambiente industrial pode atrair um novo perfil de trabalhador e, assim, despertar o interesse dos jovens e, inclusive, das mulheres para funções operacionais, em campo?
Confira a seguir a visão do engenheiro José Carlos de Arruda Sampaio, especialista em transformação organizacional baseada em riscos, segurança, ESG e excelência operacional. Autor dos livros “Manual de Aplicação da NR-18” e “Programa de Condições e Meio Ambiente do Trabalho na Indústria da Construção”, Sampaio é sócio-fundador da JDL Qualidade, Segurança do Trabalho e Meio Ambiente, consultoria que já atendeu centenas de empresas de diferentes setores industriais em todo o Brasil.

Qual é a sua visão sobre a falta de mão de obra na construção civil brasileira?
José Carlos de Arruda Sampaio – O Brasil enfrenta hoje uma contração estrutural no contingente de trabalhadores dispostos a ingressar e permanecer no setor, combinada com o envelhecimento da força de trabalho, a migração de jovens para outras atividades econômicas e a crescente exigência de qualidade técnica. As construtoras atuam em um cenário de cronogramas apertados, padrões de qualidade rigorosos e interfaces com múltiplos agentes. A situação, portanto, torna-se ainda mais crítica. Atrasos gerados por absenteísmo, retrabalho decorrente de execução artesanal heterogênea e dificuldade de reposição de mão de obra comprometem margens, reputação e competitividade.
“Os jovens de hoje não pensam da mesma forma que seus pais em relação ao trabalho. Ainda mais quando se trata de processos operacionais na construção, que somam a exigência de esforço físico e salários não muito atrativos em relação às outras profissões.” José Carlos de Arruda Sampaio
Há quem diga que o setor já passou por crises parecidas…
Sampaio – Não se trata de uma crise conjuntural. Trata-se de uma reconfiguração permanente do mercado de trabalho, que exige uma resposta igualmente perene: a transição progressiva de processos artesanais para mecanizados, apoiados em ferramentas, protocolos de execução e equipes menores, porém mais capacitadas e produtivas. O objetivo das empresas deve ser a introdução de pequenos equipamentos e ferramentas que reduzam a dependência de processos manuais e artesanais nas etapas construtivas mais críticas. Algo capaz de gerar ganhos mensuráveis de produtividade, padronização de qualidade e segurança operacional, além de construir uma metodologia de decisão replicável para futuras obras.
Como motivar e atrair os jovens a serem operários na construção civil?
Sampaio – Os jovens de hoje não pensam da mesma forma que seus pais em relação ao trabalho. Ainda mais quando se trata de processos operacionais na construção, que somam a exigência de esforço físico e salários não muito atrativos em relação às outras profissões. Sem falar nas condições precárias de trabalho, metodologia construtiva artesanal e baixa possibilidade de crescimento na carreira. É preciso melhorar essas questões nas empresas e promover um sentimento de pertencimento no trabalho, para que o operário se sinta útil, se liberte dessa falta de perspectiva e volte a se empolgar com a vida profissional.
“O método artesanal utiliza poucos equipamentos. Depende da força física do trabalhador, principalmente no que se refere ao carregamento, armazenamento e transporte de materiais.” José Carlos de Arruda Sampaio
A mecanização e a industrialização do setor podem ser aliadas nesse processo de atração de novos profissionais?
Sampaio – Se analisarmos a história, vamos perceber que os métodos construtivos sempre evoluíram quando pressionados por conjunturas sociais e econômicas. Foi assim, por exemplo, com a primeira e a segunda Revolução Industrial. O importante é sair da fase de conscientização e entrar numa fase de convicção. É por isso que eu acredito que, para atingir patamares de produtividade semelhantes aos países desenvolvidos, torna-se imprescindível a mecanização e a racionalização dos processos e atividades de construção. É preciso transformar o canteiro de obra em uma espécie de linha de montagem, com a aplicação de sistemas pré-fabricados, que chegam prontos para serem montados, alcançando até o nível da construção modular. Veja o exemplo do agronegócio brasileiro, que se tornou um player mundial. Saiu daquele trabalho simples, manual, se mecanizou e hoje somos os melhores do mundo na produção de vários alimentos. E esse desenvolvimento nos últimos anos se deu, principalmente, pelo uso da tecnologia.
“Eu acredito que, quando os processos construtivos se aproximarem de um ambiente com características industriais, o jovem trabalhador ficará mais empolgado em trabalhar nessas condições.” José Carlos de Arruda Sampaio
Isso não aconteceu na construção civil?
Sampaio – A indústria da construção civil passou por um processo de mobilização, principalmente em relação aos materiais que podem ser utilizados na obra. Hoje, há tudo o que se possa imaginar. Também foram introduzidas dezenas de tecnologias na modernização dos projetos, com muitas opções de softwares disponíveis no mercado. Existe tudo o que você precisa para o projeto, desde a metodologia BIM até uma série de novas aplicações digitais. O problema é que o processo de construção, em boa parte, continua da mesma forma na qual era executado em 1930, com pilares, vigas e lajes moldadas in loco. O método artesanal utiliza poucos equipamentos. Depende da força física do trabalhador, principalmente no que se refere ao carregamento, armazenamento e transporte de materiais. Isso revela que não estamos alinhados com o que a agricultura, a pecuária e diversas outras indústrias fizeram nos últimos anos. Há essa diferença de patamar. Eu acredito que, quando os processos construtivos se aproximarem mais de um ambiente com características industriais, o jovem trabalhador ficará mais empolgado em trabalhar nessas condições. O jovem de origem humilde passou a estudar muito mais nos últimos 20 anos e não quer o trabalho braçal e as condições precárias oferecidas pela construção civil. Muitos deixam de atuar no setor por perceberem que a profissão tem baixo status social e acabam preferindo outras atividades.
“Atrair e reter mais mulheres faz parte de uma economia inteligente. Temos que colocar isso como meta. A construção é uma área historicamente dominada pela presença masculina.” José Carlos de Arruda Sampaio
O percentual de mulheres entre os operários da construção tem aumentado, mas ainda é pequeno se comparado à presença masculina. Atrair a mão de obra feminina pode ser uma estratégia interessante para as construtoras?
Sampaio – Sem dúvida. Atrair e reter mais mulheres faz parte de uma economia inteligente. Temos que colocar isso como meta. A construção é uma área historicamente dominada pela presença masculina. E há espaço para as mulheres trabalharem dentro do processo operacional, como pedreiras, carpinteiras, marceneiras, eletricistas, impermeabilizadoras, vidraceiras, motoristas, técnicas de refrigeração, laboratoristas, técnicas de edificação, de segurança do trabalho, de qualidade, de meio ambiente, entre outras funções. Só que, para atrair essa mão de obra, é necessário fazer algumas mudanças no ambiente de trabalho. Se os processos se tornarem menos artesanais, mais mecanizados e automatizados e as colaboradoras forem qualificadas, com certeza, haverá mais espaço para o trabalho feminino e para as jovens profissionais no setor.
Texto: Eric Cozza | Fonte: Portal AECweb