Autor: Luiz Henrique Ceotto
São diversos os fatores que ainda retardam o avanço da construção industrializada no Brasil. Entre os principais:
- Falta de consciência sobre a necessidade de mudança;
- Juros extremamente elevados da economia;
- Disponibilidade tecnológica muito desigual entre as diferentes regiões do País;
- Baixo nível de articulação setorial;
- Recursos escassos destinados pelas empresas à pesquisa e desenvolvimento e à insuficiente capacitação profissional.
A solução para esses problemas depende, em diferentes graus, de ações do próprio setor da construção, das condições da economia brasileira e de políticas governamentais.
Entretanto, há três fatores que dependem principalmente de nós: a consciência da necessidade de mudança, a articulação setorial e a capacitação profissional das empresas. Esses estão, em grande medida, em nossas mãos.
A consciência da necessidade de mudança tem evoluído de forma significativa, impulsionada principalmente pela enorme — e crescente — escassez de mão de obra no mercado e pela realização de eventos setoriais que vêm ampliando a discussão sobre alternativas construtivas de maior produtividade.
Essa evolução só não ocorre mais rapidamente em razão do forte conservadorismo do setor, consolidado por mais de um século de inércia e favorecido, durante décadas, pela abundância de mão de obra barata e por determinadas condições tributárias que pouco estimularam a industrialização. Esse cenário, entretanto, está mudando rapidamente. Os antigos “incentivos” à manutenção do modelo tradicional estão desaparecendo.
O baixo nível de articulação setorial é outra característica marcante da nossa construção, na qual ainda predomina, em grande medida, a cultura do “cada um por si e salve-se quem puder”.
“Fabricantes de sistemas construtivos, fornecedores de materiais e construtoras ainda conversam muito pouco entre si. Cada elo da cadeia toma decisões sem conhecer suficientemente as necessidades, dificuldades e limitações dos demais.” , Luiz Henrique Ceotto
Muitas vezes, o diálogo entre empresas acaba restrito a preço, prazo de entrega e condições de pagamento.
Quando comparamos esse nível de integração com o existente na indústria automobilística, fica evidente o tamanho da distância que ainda precisamos percorrer. Nesse aspecto, a construção ainda está na Idade da Pedra.
O terceiro ponto é a capacitação profissional das empresas. Construir edifícios de forma industrializada é substancialmente diferente de construir segundo os métodos tradicionais. Essa mudança afeta praticamente todas as etapas do empreendimento: concepção, projeto, planejamento, orçamento, suprimentos, logística, execução e gestão.
E uma parcela significativa das construtoras ainda não percebeu plenamente essa diferença.
“A industrialização começa muito antes do início da obra — e até mesmo antes do início dos projetos.”, Luiz Henrique Ceotto
Começa com o estudo e a definição do processo construtivo que a empresa pretende adotar para as tipologias de empreendimentos em que atua. Essa é uma decisão estratégica e exige uma análise ampla, envolvendo aspectos como disponibilidade e maturidade das tecnologias nas diferentes regiões de atuação, oferta e qualificação da mão de obra, impacto sobre a velocidade de execução, organização do canteiro, fluxo de caixa, disponibilidade de equipamentos de montagem, manutenção futura do edifício e, principalmente, a capacidade do sistema escolhido de resolver os pontos críticos de cada tipologia construtiva.
Portanto, a evolução da industrialização depende de ações que estão dentro das empresas, mas também de iniciativas que pertencem ao âmbito coletivo do setor. E, nesse processo, as organizações setoriais têm uma responsabilidade enorme.
As empresas não conseguirão conduzir sozinhas a transformação necessária, por mais dever de casa que ainda tenham a fazer.
“É indispensável desenvolver toda a cadeia produtiva para que existam condições reais de produzir de maneira industrializada. E esse desenvolvimento dificilmente ocorrerá sem diálogo permanente entre construtoras, projetistas, fabricantes, fornecedores e demais agentes envolvidos.”, Luiz Henrique Ceotto
Mais do que simplesmente conversar, precisamos criar um ambiente de cooperação, entendimento e governança setorial, capaz de definir objetivos comuns, organizar esforços, estabelecer prioridades e acompanhar continuamente sua evolução.
A industrialização da construção não será resultado do esforço isolado de algumas empresas. Ela será, necessariamente, uma construção coletiva do setor.
Autor: Luiz Henrique Ceotto
