A economista Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos de construção do FGV IBRE e uma das autoras do índice, detalha a metodologia, os obstáculos à adoção de sistemas industrializados e as perspectivas para os próximos anos
O FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) lançou o Índice Geral de Industrialização da Construção (IGIC), primeiro indicador brasileiro dedicado a acompanhar, ano a ano, o grau de adoção de sistemas construtivos industrializados no País.
O IGIC evoluiu de 14,8 para 15,7 pontos entre junho de 2025 e junho de 2026 — um avanço de 0,9 ponto percentual, puxado principalmente pelo crescimento do Indicador de Adoção (de 45,7 para 48,2 pontos), que mede a proporção de empresas que utilizam sistemas construtivos industrializados, seja em todas as obras ou em parte delas.
O Indicador de Intensidade permaneceu praticamente estável (de 32,4 para 32,6 pontos). Ele mede a participação média de obras industrializadas entre as empresas que declararam utilizar sistemas construtivos industrializados. Mais detalhes sobre a metodologia e os resultados completos do índice estão disponíveis no Blog do IBRE.
A expectativa da FGV IBRE é seguir aplicando os quesitos anualmente, de forma a consolidar uma série histórica capaz de mostrar se o Brasil está, de fato, avançando rumo a uma construção mais industrializada e em qual ritmo.
Em entrevista ao site do NICC, a economista Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos de construção do FGV IBRE, explicou como o índice é calculado, quais barreiras ainda travam a disseminação da industrialização no Brasil e por que ela considera o momento atual particularmente favorável ao avanço do tema.

de projetos de construção do FGV IBRE
Um quesito especial dentro da Sondagem da Construção
Segundo Castelo, a ideia de medir a industrialização de forma sistemática vem de uma pesquisa pioneira realizada em 2024 pelo FGV IBRE e encomendada pela Francal Feiras, promotora do evento Modern Construction Show.
O levantamento mapeou o uso, os desafios e os benefícios da construção modular e industrializada no Brasil. Traçou um panorama inédito do setor e identificou, inclusive, as dificuldades das empresas para adotar sistemas industrializados. Não foi possível repetir aquela pesquisa na mesma profundidade, mas a equipe decidiu incorporar questões equivalentes aos quesitos especiais da Sondagem da Construção, realizada regularmente pela FGV.
O IGIC foi construído, assim, a partir de duas rodadas do mesmo questionário — aplicadas em junho de 2025 e em junho de 2026 — junto à mesma amostra da Sondagem da Construção, de cerca de 700 empresas dos segmentos de edificações, infraestrutura e serviços especializados.
“Decidimos colocar nos quesitos especiais da Sondagem da Construção algumas questões que permitissem acompanhar como está a adoção de sistemas industrializados. Fizemos no ano passado em junho e, neste ano, repetimos a pergunta, com a mesma amostra.” | Ana Maria Castelo, economista e coordenadora de projetos de construção do FGV IBRE
A pesquisa deve continuar sendo realizada anualmente, sempre no mesmo período do ano (junho/julho), visto que o ciclo produtivo da construção é longo e as empresas não costumam trocar de sistema construtivo no meio das obras. Castelo pondera, no entanto, que a periodicidade pode ser revista caso a adoção de sistemas industrializados acelere de forma significativa nos próximos anos.
“Se, no ano que vem, tivermos um salto de 2 ou 3 pontos, talvez valha a pena reduzir o intervalo da pesquisa. Mas, a princípio, parece que um ano é oportuno, considerando que o ciclo produtivo é longo.” | Ana Maria Castelo, economista e coordenadora de projetos de construção do FGV IBRE
Cesta de sistemas monitorados
O questionário aplicado pela Sondagem da Construção pergunta, em duas etapas, se a empresa adota sistemas industrializados — total ou parcialmente — e, na sequência, qual o percentual de obras em que esses sistemas estão presentes. Depois, pede que a empresa assinale quais sistemas utiliza, entre uma lista de opções (pergunta de múltipla escolha, com espaço para indicar “outros”):
- Banheiros prontos;
- Caixas de elevador pré-fabricadas;
- Construção modular (painéis 2D ou módulos prontos 3D);
- Drywall;
- Estrutura em aço;
- Estruturas pré-fabricadas de concreto;
- Kits elétricos;
- Kits hidráulicos;
- Madeira engenheirada;
- Painéis cimentícios;
- Sistemas de fachadas pré-fabricadas;
- Steel frame;
- Steel deck;
- Wood frame.
Sem parâmetro internacional direto
Ao pesquisar referências para desenhar o índice, a equipe do FGV IBRE constatou que não existe, em outros países, um indicador com as mesmas características do IGIC.
Castelo explica que a literatura internacional costuma tratar o tema de forma mais genérica, dividindo a produção em construção off-site e on-site, sem o nível de detalhamento por sistema construtivo que o IGIC oferece.
Por isso, o IGIC foi desenvolvido com base na realidade brasileira, apoiado em referencial teórico internacional, mas sem correspondência direta com índices de outros países. Sua função, segundo Castelo, é essencialmente acompanhar a evolução da própria trajetória do Brasil ao longo do tempo.
Desafios: custo inicial, cultura e tributação
Retomando os achados da pesquisa de 2024, Castelo lista alguns dos principais obstáculos identificados pelas empresas para adotar sistemas industrializados de forma mais ampla. O primeiro é financeiro: o custo inicial de implantar sistemas industrializados costuma ser mais alto do que o de sistemas tradicionais.
O segundo é cultural: resistência ou desconhecimento por parte de gestores, somados à necessidade de qualificar a mão de obra para operar esses sistemas.
O terceiro desafio, e um dos mais discutidos, é tributário. Historicamente, a construção executada no canteiro é tributada como serviço (ISS), enquanto componentes produzidos em fábrica recolhem tributos industriais como o ICMS — o que torna o sistema industrializado, em geral, mais caro do que o convencional.
“É algo contraintuitivo: penalizamos a eficiência e a industrialização. Isso acontece por uma espécie de mentalidade oportunística dos entes subnacionais de tributação. Você produz no canteiro de obra e paga ISS. Produz na indústria e paga ICMS. Isso representa um desestímulo muito importante, embora não seja o único fator.” | Ana Maria Castelo, economista e coordenadora de projetos de construção do FGV IBRE
O que muda com a reforma tributária
Para Castelo, a transição para o novo sistema tributário, iniciada em 2026, deve mitigar significativamente essa distorção, ao aproximar a carga tributária entre os dois modelos construtivos. Ainda há pontos em aberto, mas a tendência, segundo ela, é de maior isonomia fiscal entre construção convencional e industrializada.
“Eu diria que estamos, pelo menos, mitigando um ponto importante. Vai reduzir significativamente a distorção. Em princípio, você vai ter uma indução à utilização dos sistemas industrializados com isonomia tributária.” | Ana Maria Castelo, economista e coordenadora de projetos de construção do FGV IBRE
A economista pondera, entretanto, que o efeito da reforma não será imediato: a expectativa é de melhora marginal já no primeiro ano após a transição, com resultados mais significativos a partir de dois anos, prazo em que o IGIC deve capturar de forma mais clara o impacto da nova tributação.
Questionada sobre o modelo de financiamento habitacional brasileiro, Castelo reconheceu que o tema não fez parte do escopo original da pesquisa, mas é um obstáculo relevante para o setor residencial.
No Brasil, o financiamento bancário à produção costuma cobrir uma parcela limitada do custo da obra (Loan-to-Value, ou LTV): em média, algo entre 60% e 70%. Como há pouca poupança prévia e o poder aquisitivo da população não é alto, resta à incorporadora financiar o restante para o comprador durante o período das obras. Ou seja, o eventual ganho de produtividade com a industrialização não é acompanhado pelo financiamento. É uma questão relevante a ser resolvida.
Sem recorte regional
Uma limitação reconhecida pela pesquisadora é a ausência de um recorte regional no IGIC, visto que a Sondagem da Construção não é estruturada para captar diferenças por região com representatividade estatística.
A pesquisa de 2024 até tentou esse recorte, mas não obteve adesão suficiente em todas as regiões para garantir representatividade. Trata-se de uma situação que, segundo Castelo, só mudaria com uma pesquisa específica dedicada a esse fim.
Tendências
Com dois pontos no tempo já registrados — 2025 e 2026 —, Castelo já enxerga uma tendência: a melhora do IGIC, mais forte no segmento de Edificações, está fortemente relacionada ao crescimento do mercado imobiliário, impulsionado pelo programa Minha Casa Minha Vida, e à escassez de mão de obra, que tem levado empresas a buscar sistemas mais produtivos.
Castelo pondera, entretanto, que a desaceleração da economia e os desafios fiscais do País são pontos de atenção. A economista lembra que, mesmo em um período de desmobilização do setor entre 2015 e 2018, a agenda da industrialização se manteve viva dentro das entidades setoriais. Isso reforça a avaliação de que a tendência de avanço deve se sustentar, ainda que em ritmo diretamente influenciado pelo ciclo econômico.
Saiba mais:
Índice Geral de Industrialização da Construção, Blog do IBRE
Resultados da enquete “Desafios da Industrialização na Construção Civil Brasileira”, feita pelo NICC (Núcleo Industrialização na Construção Civil) em maio de 2026