“Industrialização é mudança total”

Em um cenário de escassez de mão de obra em praticamente todas as regiões do Brasil, a industrialização dos processos de produção surge como alternativa para mitigar os efeitos da falta de operários.

O debate não é novo. Ao longo das últimas décadas, houve muita discussão sobre a necessidade do avanço da industrialização. Vários entraves, no entanto, costumavam ser apontados pelos profissionais do setor: impostos sobre a construção industrializada, o modelo de financiamento residencial, a cultura artesanal do setor etc.

A crise da mão de obra, no entanto, tem modificado o panorama. Para falar sobre o assunto, o NICC entrevistou o engenheiro civil, Francisco Oggi, sócio-diretor do Empório do Pré-Moldado, que atua em assessoria, projeto e consultoria com transferência de tecnologia em sistemas construtivos industrializados. Confira a seguir.

(…) A qualidade dos projetos não atende às necessidades da execução das obras”

NICC | A principal dor na construção civil, hoje, é a falta de mão de obra. Gera insegurança e imprevisibilidade. A industrialização é um caminho óbvio, mas parece difícil começar para as construtoras que sempre trabalharam com o sistema convencional. Qual é a saída para essas empresas?

Francisco Oggi | Estamos muito acomodados. Precisamos nos conscientizar de que o problema da mão de obra é global. Se é global, então, é necessário mover-se para verificar o que os outros países estão fazendo. Este é o primeiro passo.

NICC | No estágio atual da construção civil brasileira, o que compensa mais: desenvolver um sistema construtivo próprio ou buscar opções entre os fornecedores / sistemistas especializados em construção industrializada?

Oggi | Atualmente os fornecedores já socorrem as construtoras, pois a qualidade dos projetos não atende às necessidades da execução das obras.

” (…) Os projetos das várias disciplinas são elaborados independentemente, sem coordenação. Isso implica na improvisação nos canteiros, a um custo muito alto”

NICC | Já temos fornecedores para a construção industrializada no Brasil, os chamados sistemistas, em quantidade e qualidade? Ou teremos apenas quando houver mais demanda?

Oggi | Os sistemistas serão a solução, como já são no resto do planeta. Estamos esperando as construtoras perceberem que, com a demanda existente, seria muito fácil estimular e incentivar a criação dos sistemistas.

NICC | O senhor costuma dizer que um dos problemas, hoje, é o fato de a concepção do projeto ser dirigida para a construção artesanal. Ou seja, mesmo quando o sistema industrializado é cogitado, orçado e aprovado, ele já chega como uma adaptação. Como mudar tal realidade?

Oggi | Como já mencionei, os projetos das várias disciplinas são elaborados independentemente, sem coordenação. Isso implica na improvisação nos canteiros, a um custo muito alto. Hoje cabe aos fornecedores resolver tais problemas. Temos que mudar urgentemente a forma de fazer projetos.

“A construção industrializada não será resolvida pela próxima plataforma de software, pela próxima exigência de BIM ou pelo próximo programa de inovação financiado pelo governo”

NICC | Como o senhor enxerga a possibilidade de estruturas mistas (concreto, aço e madeira) no contexto da construção industrializada no Brasil? É um caminho interessante?

Oggi | Não existem estruturas mistas, mas sim estruturas híbridas, que levam em consideração as melhores características de cada material. Não estamos, porém, aparelhados com projetistas e construtores que dominem essa interação de vários materiais em um mesmo projeto. Prática esta já exercida lá fora há muito tempo.

NICC | Qual será o papel da digitalização dos processos e o impacto da metodologia BIM na construção industrializada no Brasil?

Oggi | A construção industrializada não será resolvida pela próxima plataforma de software, pela próxima exigência de BIM ou pelo próximo programa de inovação financiado pelo governo.

NICC | Quais sistemas ou tecnologias industrializadas o senhor destacaria para enfrentar o atual cenário da falta de mão de obra no Brasil?

Oggi | Industrialização é mudança total. Hoje pensamos no produto e não temos processo para produzi-lo, pois artesanato não é processo industrial. Precisamos entender o que é processo de produção e converter os projetos em projetos de produção. Fazer pré-construção para, no final, tocar a execução.