Como capacitar profissionais para a industrialização da construção?

O grande fantasma da construção civil nacional nos dias de hoje é a falta de mão de obra. Empresários, executivos e pessoal de campo têm se queixado da crescente dificuldade de encontrar equipes minimamente qualificadas e dispostas a trabalhar nos canteiros.

O perfil artesanal do setor, aliado ao trabalho braçal pesado, estaria afastando os profissionais das obras. A solução mais apontada tem sido a industrialização dos canteiros e a adoção de novos sistemas construtivos. Mas como fazer isso de uma hora para outra, sem a necessária curva de aprendizado por parte das construtoras, sem mão de obra e fornecedores preparados? 

Afinal, se o Brasil constrói praticamente da mesma forma há dezenas de anos e o setor nunca se ocupou, de fato, com a capacitação em massa dos trabalhadores, será que isso vai acontecer agora quando se fala em construção offsite e canteiros como locais de montagem?

Para falar sobre esse assunto, nós consultamos um profissional que defende, há muitos anos, a industrialização da construção no Brasil: o engenheiro Luiz Henrique Ceotto, que passou por grandes empresas do setor, tais como Encol, Inpar e Tishman Speyer. Leia a entrevista abaixo:

Como capacitar profissionais para a industrialização da construção?

Luiz Henrique Ceotto – Quando há industrialização na construção civil, normalmente as construtoras se tornam general contractors. Trata-se de algo relativamente comum em São Paulo, mas ainda pouco observado no restante do Brasil. Na grande maioria dos estados brasileiros, as construtoras têm mão de obra própria, o que pressupõe a existência de determinados materiais básicos e os artesãos encarregados de trabalhar com eles. Quando se trata de industrialização da construção, há uma visão sobre o sistema, não mais sobre os materiais. E o sistema é desenvolvido pela indústria, por fornecedores especializados. É o que, normalmente, acontece no mundo inteiro. Esses fornecedores de sistemas costumam ter mão de obra homologada. Não são, necessariamente, verticalizados. Ou seja, homologam empresas, muitas vezes familiares, que montam o sistema com uma produtividade muito alta. Oferecem uma garantia da efetividade da solução.

Faltam no Brasil fornecedores para a construção industrializada, ou seja, uma cadeia de sistemistas, como acontece, por exemplo, na indústria automobilística? Como resolver isso?

Ceotto – Nós temos, aqui no Brasil, sistemistas de praticamente todas as tecnologias disponíveis no mundo. Só que ninguém usa. Então, ficamos naquele dilema: o que vem primeiro? O ovo ou a galinha? Achamos que não temos sistemistas porque, na verdade, ninguém usa grande parte dos sistemas industrializados que estão por aí. São subutilizados. A partir do momento em que forem empregados em larga escala, tenho certeza que a formação de mão de obra vai vir junto. E esses sistemistas vão ampliar as suas redes de prestadores de serviços ligados a essas tecnologias, de uma maneira muito rápida. Hoje, ainda não há demanda. É muito baixa.

Na sua opinião, qual é o maior entrave para a industrialização do setor? Trata-se de uma questão cultural (“sempre fiz assim e deu certo”), financeira (mão de obra abundante e barata) ou política (falta de incentivo ou até penalização tributária dos sistemas construtivos industrializados)?

Ceotto – Vejo dois fatores preponderantes. Primeiro, o sobrecusto artificial imputado pela tributação de produtos industrializados. (…) O imposto pago pela construção convencional é muito baixo quando comparado ao da industrializada. (…) O segundo problema é o desinteresse pela obra rápida. O cliente do mercado residencial, que representa cerca de 60% de tudo que se constrói no Brasil, não é preparado para o ato de comprar. (…) Como não há poupança prévia e os bancos só financiam de 70% a 80% do valor do imóvel, somos obrigados a dar prazo para ele. O percentual de entrada é pago pelo cliente durante as obras. O Brasil ainda é um país pobre, no qual as pessoas não conseguem arcar com 20% a 30% do imóvel logo de cara. O prazo tem que ser maior. Por isso, o intervalo entre a compra na planta e o início da obra é de 9 a 12 meses. Depois disso, um empreendimento que poderia ser feito em um ano, é executado em 3 ou 4 anos. Tudo para dar tempo de o cliente poder pagar esses 20% a 30%. Para, depois, vir o banco e financiar o restante.

E a questão cultural?

Ceotto – O ser humano é resistente às mudanças, principalmente no nosso setor, que é muito pouco desafiado. Mas qualquer suscetibilidade será vencida rapidamente pela questão econômica. Se, de alguma maneira, removermos os entraves financeiros, em questão de pouquíssimos anos, não teremos mais nenhum empresário pensando em empilhar tijolo. Precisamos eliminar essa artificialidade do tributo que onera pesadamente a construção industrializada. E tudo em nome da ilusão de a construção convencional gerar muitos empregos. Só que já está faltando mão de obra. Esse era um discurso de 10 anos atrás. Temos um setor no qual se trabalha em um ambiente hostil, com barulho, muito pó de cimento, de gesso e poeira. É um lugar inseguro. Há muito esforço físico e as atividades são penosas. Ora, o filho do pedreiro ou do carpinteiro não quer mais isso. O mercado, hoje, oferece uma série de outras alternativas. (…)

Temos saída viável no curto ou médio prazo?

Ceotto – Creio que temos. Se a reforma tributária conseguir equalizar os impostos entre a construção industrializada e a convencional, isso vai eliminar o gap de custo entre as duas formas de construir e dar oportunidade à industrialização. Outro ponto importante: preparar o cliente para a compra. Hoje, o cliente é um desavisado. No passado, nós tínhamos instrumentos de poupança que preparavam, durante 3 a 4 anos, o cliente para comprar. Ele poupava previamente ao invés de pagar esses 20% a 30% ao longo da obra. Era a poupança programada da Caixa Econômica Federal, que oferecia até juros subsidiados. O comprador poupava durante alguns anos e recebia uma carta de crédito no valor de cinco vezes aquilo que havia depositado. Ora, carta de crédito é dinheiro na mão. Se o comprador tem o recurso disponível, por que vai se preocupar em adquirir um apartamento na planta? O setor, portanto, tem que focar nesses dois itens. (…) Feito isso, teremos uma revolução no setor em questão de 5 a 10 anos. Vai acontecer o que já houve na agricultura: sair de um setor super atrasado, como hoje somos na construção civil em relação ao mundo, para um dos mais avançados do planeta. (…) A questão cultural se resolve. É só botar a frigideira para funcionar. Os empresários pulam e resolvem o problema.

Texto: Eric Cozza | Fonte: Portal AECweb