Vencedores do Prêmio Talento Engenharia Estrutural 2026

A Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (ABECE) e a Gerdau divulgaram os vencedores do Prêmio Talento Engenharia Estrutural 2026. Entre as obras reconhecidas estão soluções em concreto pré-fabricado, lajes protendidas modulares e estrutura híbrida com madeira engenheirada.

Criado em 2003, a premiação é anual e tem como objetivo valorizar o profissional de projeto e consultoria estrutural. Podem concorrer projetistas sediados no Brasil, responsáveis técnicos pelo projeto, associados ou não à ABECE, com obras concluídas até o encerramento das inscrições.

Os trabalhos inscritos neste ano disputaram em cinco categorias:

  • Edificações: edifícios residenciais, comerciais, escolares ou industriais com mais de 3.000 m² e mais de quatro pavimentos.
  • Edificações Habitacionais Racionalizadas: edifícios habitacionais com mais de quatro pavimentos executados em sistemas racionalizados.
  • Infraestrutura: obras públicas que não sejam edifícios, tais como pontes, viadutos, portos e barragens.
  • Obras de Pequeno Porte: residências unifamiliares e edifícios de até 3.000 m² e até quatro pavimentos.
  • Obras Especiais: sistemas construtivos específicos ou diferenciados, como reforços, retrofit, coberturas e monumentos.

A decisão coube a um júri de sete profissionais indicados pela ABECE e pela Gerdau, que avaliam originalidade, monumentalidade, implantação no ambiente, esbeltez, deformabilidade, estética e economicidade, além dos processos construtivos e do uso adequado dos materiais.

Neste ano, 23 obras chegaram à final: cinco em Edificações, cinco em Edificações Habitacionais Racionalizadas, cinco em Obras de Pequeno Porte, quatro em Infraestrutura e quatro em Obras Especiais.

Pelo regulamento, a votação online não está vinculada à definição dos vencedores e das menções honrosas das categorias, embora a comissão julgadora possa estabelecer critérios para valorizar os trabalhos mais votados.


Edificações: Esther Towers (São Paulo, SP)

Projeto estrutural: Francisco Paulo Graziano · Construtora: EZTEC · Arquitetura: Carlos Ott · Área: 144.188 m² · Conclusão: 2026

O empreendimento é composto por duas torres corporativas com inclinação de 82° em relação ao plano horizontal, dispostas em sentidos opostos e com geometria oblíqua entre si, interligadas no topo por um heliponto em estrutura metálica espacial suspensa.
 
O projeto de arquitetura é do uruguaio Carlos Ott, cujo escritório possui sede em Montevidéu e filiais em Dubai, Montreal, Xangai e Toronto. A concepção arquitetônica demandou uma solução estrutural específica para cada não linearidade geométrica introduzida pela inclinação.
 
Principais desafios técnicos do empreendimento:

  • Estabilidade global sob inclinação permanente de 82°;
  • Concretagem em grande volume das fundações e prevenção de formação de etringita tardia;
  • Compatibilização de deslocamentos diferenciais na estrutura do heliponto;
  • Redução do prazo de escoramento especial em pé-direito triplo;
  • Otimização do consumo de aço em estrutura mista nas empenas;
  • Pavimentos-tipo com geometria variável entre pavimentos.

    A geometria inclinada exigiu análises de segunda ordem e ensaios físicos em túnel de vento para determinar pressões de fachada, coeficientes de arrasto e sucção, além de momentos de torção. Os resultados permitiram calibrar a rigidez dos núcleos e otimizar o consumo de concreto e armaduras.
     
    O heliponto do Esther Towers resolve, por meio de apoios articulados e um sistema de treliça horizontal conectado aos núcleos das torres, a transferência dos esforços horizontais decorrentes dos deslocamentos diferenciais entre as torres, sem introduzir solicitações adicionais na fachada.
     
    No edifício de embasamento entre as torres, que contemplam 5 pavimentos além dos subsolos e térreo, foi utilizada uma solução estrutural em paredes de concreto acima do térreo com vãos de até 17m, que abriga uma subestação e salas técnicas para atendimento das torres.

Edificações Habitacionais Racionalizadas: Plano & Alto Cantareira (São Paulo, SP)

Projeto estrutural: André Luis Haber Wendler · Construtora: Plano&Plano · Arquitetura: Rodrigo Sobreiro Arquitetos · Área: 29.704 m² · Conclusão: 2026

Com duas torres de 31 pavimentos e 80,90 m de altura, o empreendimento foi executado em alvenaria estrutural do mundo, com blocos de 14 cm de espessura. São 728 apartamentos de dois dormitórios, com cerca de 32 m² cada.

O projeto levou a alvenaria estrutural a um patamar desafiador de verticalização. Procurou seguir alguns fundamentos: paredes esbeltas, modulação, repetitividade e consumo racional de materiais.

Para viabilizar a altura, o cálculo combinou lintéis de alvenaria e concreto armado formando pórticos, trechos rígidos nos modelos, efeito arco, paredes duplas e maior taxa de graute nos primeiros pavimentos. O desenvolvimento se apoiou na revisão da ABNT NBR 16868 e no uso de blocos de concreto de 24 e 26 MPa, caracterizados em três rodadas de ensaios — a última em canteiro, para simular a resistência dos prismas em condições reais.


Infraestrutura: Ciclo-Passarela da Nova Orla de São Pedro (Vitória, ES)

Projeto estrutural: Otavio Barbosa Guimarães · Construtora: Contractor (Consórcio Contractor × Transmar) · Cliente: Prefeitura de Vitória · Área: 1.600 m² · Conclusão: 2026

Com 4 m de largura e cerca de 400 m de extensão, a ciclo-passarela contorna o morro do bairro Resistência e o conecta ao bairro Nova Palestina. O anteprojeto previa estruturas pré-moldadas, mas o içamento das peças se mostrou inviável pela ocupação da comunidade no entorno e pela dificuldade de acesso de equipamentos de grande porte. O avanço sucessivo também foi avaliado e descartado por custo.

A solução adotada foi uma laje protendida de 20 cm, com cordoalha engraxada, engastada em uma única linha central de pilares circulares de 60 cm de diâmetro, espaçados até 8 m. A curvatura do traçado, que acompanha o contorno da rocha, exigiu verificar a componente horizontal da protensão no topo dos pilares e detalhar com cuidado a ancoragem de armaduras e cordoalhas na laje de pequena espessura.

Toda a estrutura foi dividida em módulos de 60 m, montados sobre longarinas metálicas de 8 m apoiadas em torres de escoramento. Concluídos fundações e pilares, cada módulo levava 15 dias para ser montado, concretado e protendido, com a protensão aplicada três dias após a concretagem.


Obras de Pequeno Porte: Casa Raízes (Goiânia, GO)

Projeto estrutural: Fernando Melo de Assis Lima · Construtora: Teza Construtora · Arquitetura: Leo Romano Arquitetura · Área: 584 m² · Conclusão: 2025

A residência de aproximadamente 600 m² possui estrutura em concreto armado e protendido. O bloco frontal, de 15,20 m × 9,84 m, apoia-se em apenas dois pilares em forma de “Y”, de seção variável e 8,40 m de altura, que sustentam diretamente a laje plana. As vigas não passam pelos pilares e funcionam apenas como parte do fechamento em vidro e alvenaria.

No percurso entre a área íntima e a social, uma cortina de concreto armado de 28,50 m fica inteiramente suspensa pela cobertura. Na área social, outros três pilares em “Y” sustentam uma laje de 32,74 m × 15,54 m, com um trecho inclinado em rampa que atinge 3,57 m de altura e balanço de 6 m. As vigas chegam a 13,95 m de vão, com cordoalhas engraxadas.

O concreto aparente exigiu cobrimento de 4 cm e dosagem específica para evitar variações de cor. Como a protensão não poderia aparecer na fachada, foram adotados nichos e recortes para protender pela face superior da estrutura.


Obras Especiais: Estádio do Pacaembu (São Paulo, SP)

Projeto estrutural: Vitor Faustino Pereira · Construtora: Progen · Arquitetura: Sol Camacho + ARE Arquitetura · Área: 55.000 m² · Conclusão: 2025

A modernização do estádio, tombado pelo patrimônio histórico, seguiu duas frentes: a reconstrução das arquibancadas Leste e Oeste e a criação de um edifício multifuncional no lugar do antigo Tobogã, com hotel, centro de convenções, restaurantes, lojas e estacionamento.

As arquibancadas Leste e Oeste, originalmente assentadas sobre o talude natural, foram refeitas após a execução de muros de arrimo atirantados, que liberaram espaço para lojas e sanitários sob os degraus. Para reproduzir as curvaturas sutis do projeto original, os autores consideraram imperativo industrializar a solução: as novas arquibancadas foram executadas em concreto pré-fabricado, a partir de modelagem BIM de alta precisão sobre o levantamento do existente.

O pré-fabricado também predomina na parte enterrada do edifício multifuncional: uma caixa de cerca de 80 × 80 × 14 m aberta com paredes-diafragma atirantadas, que abriga o estacionamento e um centro de convenções com pé-direito de 12 m. O teto desse salão, que é também o piso da esplanada, combina vigas metálicas treliçadas de 27 m e lajes alveolares protendidas. Acima do nível do campo, a estrutura do hotel é moldada in loco, com lajes nervuradas e faixas protendidas.

A convivência entre sistemas exigiu planejamento das interfaces: os núcleos de escadas e elevadores, executados com fôrmas trepantes, receberam esperas com luvas, locadas uma a uma, para os consolos de apoio das peças pré-fabricadas e para a capa das lajes alveolares.


Destaque de Sustentabilidade: Macunis 364 (São Paulo, SP)

Projeto estrutural: Guilherme Corrêa Stamato e Felipe Vergili Sgarbosa · Construtora e arquitetura: Noah Tech · Área: 2.629 m² · Conclusão: 2026

Finalista em Obras de Pequeno Porte, o Macunis 364 recebeu do júri o Destaque de Sustentabilidade. O edifício de três pavimentos, classificado como AAA, teve a industrialização como premissa desde a concepção, para reduzir prazo e aumentar a previsibilidade da obra, além de reduzir a emissão de carbono.

A estrutura combina lajes mistas de CLT (madeira lamelada colada cruzada) e concreto moldado in loco, vigas metálicas e de MLC (madeira lamelada colada), pilares de MLC e dois núcleos de concreto para as cargas horizontais.

Para atender ao pé-direito exigido dentro do gabarito do zoneamento, as placas de CLT foram encaixadas como gavetas entre as mesas inferiores de perfis I metálicos, em solução do tipo slim floor. O espaçamento entre as placas economizou madeira e criou um shaft horizontal para tubulações.

Todo o projeto foi modelado em BIM, e os arquivos 3D alimentaram diretamente os centros de usinagem das peças de madeira e das conexões metálicas. O mesmo modelo permitiu quantificar as emissões com base nas declarações ambientais de produto (EPDs) dos fornecedores: a superestrutura ficou em 83 kgCO₂e/m² (escopos A1 a A3), enquadrada como baixa emissão pela classificação britânica SCORS.

As lajes tiveram os deslocamentos monitorados por seis meses. Ensaios de vibração conduzidos por pesquisadores da UFRJ confirmaram o comportamento previsto em projeto. A partir da experiência, a equipe desenvolveu o Semente, software de uso aberto para comparar soluções estruturais quanto à emissão de carbono nas fases iniciais de projeto.

Guilherme Stamato, um dos responsáveis pelo projeto estrutural, é membro do Conselho do Núcleo Industrialização na Construção Civil (NICC).

Destaques e menções honrosas

A Ponte de Guaratuba (Guaratuba, PR), com projeto estrutural de Rui Oyamada, recebeu o Destaque do Júri e venceu também a votação on-line. A obra tem cerca de 1.188 m de extensão, com acessos em grelha de vigas de concreto protendido. Apenas no acesso do lado Guaratuba, foram lançadas 128 vigas pré-moldadas com treliça lançadeira. O trecho estaiado de 320 m, executado em balanços sucessivos, possui vão navegável de 160 m. O projeto foi desenvolvido em BIM, integrando inclusive os equipamentos de construção.

As menções honrosas foram para:

  • Edificações: Botânica Office (Manaus, AM) — Marcus Gonçalves de Mesquita
  • Edificações Habitacionais Racionalizadas: Belém Boulevard (Recife, PE) — Benigno Marcelo Cardoso Rios
  • Infraestrutura: Bracell – Terminal Portuário de Celulose (Santos, SP) — Emerson Fernando Brustolin
  • Obras de Pequeno Porte: Stol-V House (Tibau do Sul, RN) — Dirk Mader
  • Obras Especiais: Residencial Glória – Retrofit (Rio de Janeiro, RJ) — Jéssica Tarenzi Ramos

Projeto como base da industrialização

O conjunto de obras premiadas em 2026 mostra que a eficiência de um empreendimento é definida muito antes do início das atividades no canteiro de obras. As decisões de projeto estrutural responderam por ganhos de prazo, reduções de consumo de materiais e emissões.

As premiadas também evidenciam o papel da engenharia estrutural como indutora da industrialização. Pré-fabricados de concreto, lajes alveolares, madeira engenheirada usinada a partir do modelo BIM, sistemas racionalizados de alvenaria e modulação de etapas aparecem não como escolhas isoladas, mas como resultado de integração entre arquitetura, estrutura e execução.

Ao dar visibilidade a esse trabalho, premiações como o Prêmio Talento Engenharia Estrutural valorizam referências replicáveis de boas práticas e inovações. Para o NICC, o reconhecimento dessas soluções reforça a convicção de que a eficiência máxima da industrialização na construção passa, necessariamente, por projetos concebidos, desde o início, para o sistema construtivo industrializado.


FONTES