O painel no Modern Construction Show, com a curadoria técnica do NICC (Núcleo Industrialização na Construção Civil), teve como objetivo compartilhar modelos, experiências e referências capazes de auxiliar construtoras e incorporadoras no processo de tomada de decisão sobre a adoção de sistemas construtivos industrializados.
A programação no dia 30 de setembro de 2026, no Distrito Anhembi, em São Paulo, incluiu uma abertura institucional, duas apresentações e um debate com os palestrantes, todos membros do Conselho do NICC.

O engenheiro e pesquisador do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) Claudio Mitidieri abriu o painel, apresentando o NICC, cujo foco é gerar, organizar e difundir conhecimento técnico sobre sistemas construtivos industrializados e inovadores, fazendo a ponte entre a pesquisa e a gestão técnica das obras. Segundo Mitidieri, o propósito do Núcleo é reunir os diversos subsetores da construção “sem priorizar um ou outro sistema construtivo”.

Análise, tomada de decisão e desenvolvimento tecnológico
O engenheiro Marcos Sarge, diretor executivo do Grupo Kallas, abordou o processo de análise, tomada de decisão e desenvolvimento de novos sistemas construtivos em construtoras e incorporadoras. A empresa atua tanto no segmento de habitação de interesse social, no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida, quanto no alto padrão residencial.

“A industrialização vem para aumentar a previsibilidade das obras”, afirmou Sarge. O engenheiro acredita que o objetivo é “possibilitar para o futuro morador receber seus imóveis no prazo certo e, principalmente, desenvolver a construção com o pessoal mais qualificado, com produção off-site e industrializada.”
O executivo dividiu a tomada de decisão em seis etapas. A primeira é o diagnóstico. Ou seja, antes de escolher o sistema, é importante avaliar:
- Perfil dos empreendimentos: segmento, grau de repetição, altura dos edifícios, padronização de plantas, volume de unidades;
- Indicadores do sistema empregado atualmente: prazo, custo, produtividade, desperdício, retrabalho e patologias pós-obra;
- Dores da empresa: escassez e rotatividade de mão de obra, pressão por prazo, custo e qualidade, segurança do trabalho, ESG e a necessidade de maior previsibilidade.

A segunda etapa define os atributos desejados no sistema construtivo, considerando:
- Produto e projeto: flexibilidade e modulação, repetição de tipologias e compatibilização com instalações;
- Localização e entorno: restrições de circulação de caminhões, tamanho do canteiro e distância das fábricas;
- Desempenho e conformidade: atendimento à NBR 15575, avaliação técnica (DATec/SiNAT) etc.;
- Aceitação por agentes financiadores e seguradoras.
Na terceira etapa, Sarge destacou que a escolha envolve toda a organização. “A decisão é da empresa, não de um único departamento”, defendeu o engenheiro. Projetos e Engenharia, Suprimentos, Comercial e Marketing e as áreas de Qualidade, Jurídico e Pós-obra precisam ser consultadas, com foco em novos contratos, garantias, percepção de valor pelo cliente e comunicação de prazos.

A quarta etapa trata da estratégia de transição, que pode combinar projeto piloto, industrialização pontual de subsistemas (lajes, shafts, escadas e fachadas), implementação gradual e parcerias com sistemistas — neste caso, com cuidado em relação à dependência de fornecedores e à capacidade fabril.
A quinta é a logística. “Na industrialização, a obra passa a depender da cadeia de entrega”, apontou Sarge, ao detalhar os requisitos de produção (capacidade da fábrica, lead time e estoque pulmão), transporte (dimensões e peso das peças, restrições de horário e rotas urbanas) e recebimento no canteiro (layout, equipamentos de içamento e sequenciamento just-in-time).

Por fim, a sexta etapa estabelece KPIs (indicadores-chaves de desempenho) e retroalimentação:
- Redução de mão de obra;
- Prazo e custo por metro quadrado;
- Produtividade (Hh/m²);
- Desperdício e retrabalho;
- Índice de acidentes;
- Satisfação pós-obra;
- Ciclo contínuo de melhoria.
Aplicação de sistemas construtivos industrializados
Na segunda palestra, Luis Fernando Ciniello Bueno apresentou cases de aplicação de sistemas construtivos industrializados, com as premissas de adoção e os resultados alcançados pela Rocontec.

O ponto de partida da apresentação foi o cenário atual da mão de obra. Com base em pesquisa da Autodoc/GD4, que analisou dados de 1,12 milhão de trabalhadores em 22 estados entre 2016 e 2024, Bueno mostrou o envelhecimento dos profissionais do setor: no período, a idade média dos oficiais passou de 37 para 40 anos, a dos mestres de obras, de 40 para 46 anos, e a dos engenheiros, de 30 para 37 anos.
Diante desse quadro, a construtora criou uma área de Inovação e Tecnologia, dividida em duas gerências: uma voltada à identificação de inovações e à implantação da industrialização e outra dedicada à logística das obras, à otimização do canteiro e à mecanização. Para Bueno, o caminho da industrialização começa antes da obra: “a logística passa a ser uma disciplina de projeto.”
A metodologia prevê o mapeamento de desperdícios: desde os evidentes, que devem ser eliminados com planejamento, até os ocultos, tais como o transporte de materiais e movimentação de pessoas, que podem ser reduzidos com a mecanização do canteiro.

Entre os cases apresentados, destacaram-se:
WPP Campus Vila Leopoldina, São Paulo — a montagem começou com 60% das peças pré-fabricadas de concreto já prontas e 45% dos 7.800 m² de caixilhos padronizados foram produzidos antes do início da montagem. Leia reportagem completa no site do NICC.
Beyond the Club (KSM/BTG/Realty), Santo Amaro, São Paulo — clube poliesportivo de 78 mil m² com piscina de ondas. A opção pelo pré-moldado na nova torre reduziu a necessidade de mão de obra intensiva, de 200 para 60 operários.
HSI Pinheiros, São Paulo — edifício de 18 mil m² com fachada em sistema misto de placas pré-moldadas e GRC, que reduziu de seis para três as etapas de execução, com equipe de sete pessoas e montagem simultânea à do pré-moldado.
Blvd Alti (Arqos), Alphaville (SP) — empreendimento com 225 unidades residenciais e 51 mil m² de área construída, em execução. A estrutura pré-fabricada é combinada a fachadas em painéis de light steel frame fabricados off-site, que permitem iniciar a fachada antes do término da estrutura. A obra emprega ainda instalações elétricas pré-montadas e abastecimento sem cremalheira, com manipuladores telescópicos.

Debate: mudança cultural e esforço setorial

O painel foi encerrado com um debate entre Mitidieri, Sarge e Bueno, mediado pelo coordenador de Comunicação do NICC e sócio da Cozza Comunicação, Eric Cozza.
A discussão abordou o cenário atual da mão de obra, a necessidade de mudança cultural, tanto dos profissionais quanto das empresas, e a premência de um esforço setorial coletivo em prol da industrialização das obras.
Bueno afirmou que o modelo de crescimento baseado no volume de mão de obra chegou ao seu limite estrutural e que a escassez de trabalhadores jovens é uma tendência demográfica irreversível, não um ciclo passageiro.
“Industrialização não é custo. É a única forma de crescer com margem, escala e previsibilidade”, defendeu. “Quem age agora define os padrões do setor. Quem espera executa conforme os padrões de quem agiu.”, concluiu o sócio da Rocontec.
“É necessário um grande esforço setorial, de forma integrada, para desenvolver a cadeia produtiva da construção industrializada.“, defendeu Mitidieri, do IPT. “Os fornecedores de sistemas construtivos inovadores não podem trabalhar somente do portão da indústria para dentro. Precisam ter a preocupação também com a execução ou montagem em obra, além das questões de uso e manutenção ao longo da vida útil“, complementou o pesquisador.
Na visão de Mitidieri, tal desenvolvimento dificilmente vai acontecer sem um diálogo constante entre construtoras, projetistas, fabricantes, fornecedores e todos os agentes envolvidos.